Coluna Clio

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Temer na Cadeia Aécio na Cadeia

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sábado, 9 de maio de 2015

BIOGRAFIA ABORDA BRASIL DESDE ANTES DA CHEGADA DOS PORTUGUESES ATÉ O PERÍODO FHC

BIOGRAFIA ABORDA BRASIL DESDE ANTES DA CHEGADA DOS PORTUGUESES ATÉ O PERÍODO FHC

Biografia revela a trajetória do Brasil, de seus protagonistas e do seu povo

Por :MARIA FERNANDA RODRIGUES

Obra de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling cobre desde antes da chegada dos portugueses até o primeiro governo FHC

Há poucos dias, uma jornalista brasileira trocou a foto do seu perfil do Facebook e recebeu uma avalanche de insultos (“macaca”, “escrava”, “modelo de senzala”). Em 1982, durante uma blitz da Polícia Militar numa favela carioca, suspeitos foram presos pelo pescoço e amarrados uns aos outros por uma corda. Eram todos negros. A cena, com variações, se repete todos os dias neste que foi o último país ocidental a abolir a escravidão - e que sempre acreditou na história oficial que diz que aqui ela foi mais amena do que em outros países, e que o encontro com o colonizador foi pacífico.

As historiadoras Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling mostram que não foi bem assim. Elas lançam na terça-feira, dia 12, com debate, o livro Brasil: Uma Biografia. Recheado de dados, fatos, interpretações, personagens e também curiosidades e anedotas, o livro acompanha a construção do País desde antes da chegada dos portugueses, que dizimaria boa parte da população local, até a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso. Algumas características de seus dois mandatos, assim como dos de Lula e Dilma, aparecem na conclusão.

País foi construído a partir do 'comércio de almas' Foto: Divulgação

“Só podemos apreender os processos que se finalizaram e os atores ainda estão em cena”, justifica Lilia. “Na conclusão, nos demos o direito de falar sobre grandes temas, como a corrupção, que não é endêmica, mas sim histórica e uma construção social. E também não é só nossa. Nos permitimos traçar as grandes linhas do presente, mas sem preocupação, como nos capítulos, de analisar sistematicamente”, completa. Assuntos como a Comissão da Verdade também aparecem no final.

A obra nasceu de uma encomenda da Penguin, que, por causa da Olimpíada de 2016, queria publicar na Inglaterra, como explica Lilia, “um livro não tão grande e que fosse, ao mesmo tempo, narrativo e interpretativo, bom de ler e não vocacionado para um uso escolar”. É bom de ler, ajuda a juntar os fios da meada e, melhor, é uma importante ferramenta para compreendermos onde estamos e por que chegamos até aqui. Não ficou exatamente pequeno. São 693 páginas só de textos, fora os cadernos de imagens que completam a narrativa - a foto dos homens amarrados pelo pescoço está lá bem como o registro de um treinamento de tortura feito por soldados do Batalhão da Guarda Presidencial em Brasília, em 1972. As notas foram organizadas no fim do livro, o que torna a leitura ainda mais fluida. Também no final, há uma ampla cronologia, com os principais acontecimentos no Brasil, em Portugal e no mundo. O livro sairá, ainda, nos EUA e Portugal.

Heloisa Starling explica que as autoras tentaram construir uma reflexão do Brasil por dois eixos. O primeiro é o fato de termos uma sociedade, desde o início, violenta, hierárquica e desigual. O outro é que, também desde de sua origem, ela desenha uma história de luta por autonomia, construção de direitos e liberdades. “Essa ideia de que o Brasil é essas duas coisas ao mesmo tempo é o fio condutor”, diz.

Outra questão de fundo é a mestiçagem, completa Lilia. “Pensar a mestiçagem não só como união, mas como separação. Ver quais são as ambivalências de um processo em que a escravidão é uma linguagem desde que o Brasil não é Brasil, porque desde os indígenas ela já está aqui. Carregamos essa linguagem que tem consequências no momento presente. Afinal, não se passa pelo fato de ter sido o último país a abolir a escravidão com leveza.”

Acompanhamos, assim, a história de uma nação fundada da exploração, da violência, do extermínio, do desrespeito e da ganância, mas que desde os tempos mais remotos foi às ruas para se manifestar - por interesses individuais, como nas primeiras revoltas contra os impostos e o aumento de preços, ou por questões como liberdade, justiça e democracia. 

Neste projeto que durou cerca de dois anos e meio, as autoras dizem que foram “atropeladas” pelo Brasil. No processo, alguns personagens como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães cresceram por sua coerência política e ética, explicam, e conquistaram espaço. O mesmo ocorreu com momentos, como as regências. Uma curiosidade: o capítulo sobre o período foi escrito durante as manifestações de junho; na pesquisa, o povo pedia a queda de Pedro I, a constituição, liberdades democráticas; no presente, o brasileiro pedia algo assim e muito mais.

12 imagens

Uma história composta de múltiplas narrativas

Biografar um país não é das tarefas mais simples. “Em vez de pensar uma biografia como uma elevação, cada vez mais pensamos nela como uma trajetória. E toda trajetória, seja pessoal ou coletiva, como esta, é permeada de avanços e recuos, contradições, acertos, enganos, vacilações”, conta Lilia Schwarcz. 

Para ajudar a dar conta dessa história, as autoras recorreram, também, a produções culturais da época, que apresentam um outro olhar sobre o mesmo tema. O humor também está presente em algumas passagens e descrições que nos aproximam dos grandes e dos pequenos personagens e nos levam à cena - como quando, no Motim do Maneta, em Salvador, os amotinados invadem a casa da pessoa responsável pelos impostos e acham, no segundo andar, um armário fechado. Não conseguem abri-lo e acabam jogando o móvel pela janela, que se espatifa. Para surpresa geral, derrama ouro em pó. “Uma cena de cinema”, brinca Heloisa Starling. 

O cinema brasileiro, aliás, é abordado no livro, e Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, ganha destaque. “Explodiu o primeiro filme revolucionário do Terceiro Mundo antes da Revolução Cubana”, diria Glauber Rocha à época. A literatura, o teatro e a música também estão lá, com nossos melhores intérpretes e movimentos.

“Cultura não é reflexo, ela produz um momento e seu contexto”, diz Lilia. “As linguagens da cultura fornecem outros pontos de vista sobre o evento, o personagem e a realidade e apresentam uma dimensão de subjetividade”, completa Heloisa.

Apesar de dizer que as duas autoras têm “uma grande empatia pelo biografado”, Heloisa garante que são muito impiedosas com ele. “Tememos que o biografado fique nervoso.”

Mas esta é uma história ainda em construção, e há avanços. “O País vem se enfrentando. Passamos por um período ditatorial muito mais forte do que dizíamos que passamos. Fizemos uma Constituição cidadã digna de todos. É uma sociedade que construiu um projeto mais democrático e vem batalhando por essa democracia. Sou positiva e acho que essa indignação nas ruas há de gerar cidadãos mais conscientes, ativos e atentos ao cumprimento da lei”, comenta Lilia. “Mas a República tem que aparecer. Nos valores públicos, nossa herança é perversa. A vocação é de se reinventar e o Brasil é bom de reinvenção”, completa.

DEBATE

Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. 3ª (12), 19 h. Com as autoras e o historiador Boris Fausto

BRASIL: UMA BIOGRAFIA
Autoras: Lilia Schwarcz e Heloisa Starling
Editora: Companhia das Letras (792 págs.; R$ 59,90; 39,90 o e-book)

Trechos

"De tanto misturar cores e costumes, fizemos da mestiçagem uma espécie de representação nacional. De um lado, a mistura se consolidou a partir de práticas violentas, da entrada forçada de povos, culturas e experiências na realidade nacional. 

Diferente da ideia de harmonia, por aqui a mistura foi matéria do arbítrio. Ela é resultado da compra de africanos, que vieram para cá obrigados e em número muito superior ao dos que foram levados a outras localidades. 

O Brasil recebeu 40% dos africanos que compulsoriamente deixaram seu continente para trabalhar nas colônias agrícolas da América portuguesa, sob regime de escravidão, num total de cerca de 3,8 milhões de imigrantes.

3 Hoje, com 60% de sua população composta de pardos e negros, o Brasil pode ser considerado o segundo mais populoso país africano, depois da Nigéria. Além do mais, e a despeito dos números controversos, estima-se que em 1500 a população nativa girasse em torno de 1 milhão a 8 milhões, e que o “encontro” com os europeus teria dizimado entre 25% e 95%. 

4 De outro lado, no entanto, é inegável que essa mesma mescla, sem igual, gerou uma sociedade definida por uniões, ritmos, artes, esportes, aromas, culinárias e literaturas mistas. Talvez por isso a alma do Brasil seja crivada de cores. Nossos vários rostos, nossas diferenciadas feições, nossas muitas maneiras de pensar e sentir o país comprovam a mescla profunda que deu origem a novas culturas, porque híbridas de tantas experiências.

(...)"Ao relatar a viagem que empreendeu ao Rio de Janeiro em companhia de Tiradentes, o capitão José de Souza Coelho, vereador da Câmara da vila de Pitangui, anotou ser ele “senhor de variadas aptidões: um tanto cirurgião e tira-dentes, entendedor de ervas para curar chagas e febres, perito em calçadas, pontes, moinhos e encanamentos, além de conhecer, como a palma da mão, aquelas grotas e serras e bem assim distinguir pelos respectivos nomes e apelidos todos os seus habitantes”.

(...) Em Vila Rica, ninguém acreditou: advogado de grande prestígio na capitania, Cláudio Manuel da Costa teria sido assassinado a mando de Barbacena pelo muito que sabia sobre os membros da elite econômica envolvidos na Conjuração, e sobre os grupos de interesse ligados à atividade do contrabando que incluíam o governador e seu círculo íntimo. Até os nossos dias a morte de Cláudio Manuel continua suspeita e provoca debate: não há acordo entre os historiadores. Nem entre os escritores. Mais de duzentos anos depois, o romancista Silviano Santiago, em seu belo livro Em liberdade, cujo argumento é construído em torno da constante tensão entre história e ficção, sublinhou a importância de manter acesa a desconfiança acerca da primeira versão oficial de morte por suicídio de preso político: “Que força é esta dentro de mim que não pode admitir que Cláudio tenha se suicidado na Casa dos Contos?”

(...) Entre o recebimento do ultimato de Napoleão e o embarque da corte, os dias passaram ligeiros e decisões importantes foram tomadas secretamente, tanto que nos relatos há contradições sobre datas e nomes. De toda forma, começava nesse contexto um momento definidor para a história de Portugal e do Brasil. Monarquias se movem pouco e, quando o fazem, levam malas pesadas. Não seria diferente com d. João, que vivia isolado em seu palácio, rodeado por sua biblioteca milenar, mantida pela ação dos religiosos e com a ajuda de morcegos, os quais comiam os milhares de insetos. No fundo, o príncipe sabia o tamanho da tarefa: não só transportar a família real, como transladar instituições e a própria corte imperial.

(...) Nas praias e cais do Tejo, até Belém, espalhavam-se pacotes, caixas e baús largados na última hora. No meio da bagunça e por descuido, toda a prataria da igreja Patriarcal, trazida por catorze carros, ficou na beira do rio, e só alguns dias depois voltou para a igreja. Também caixotes contendo livros da rica Real Biblioteca foram deixados para trás, no chão, para indignação dos livreiros, que lançavam impropérios diante de tamanho pouco-caso.58 Esqueceram-se carros de luxo, muitos sem terem sido descarregados. Houve até quem embarcasse sem mala, apenas com a roupa do corpo.59 O marquês de Vagos percebeu tarde demais que as carruagens e arreios da casa real tinham permanecido em terra firme, e do convés do navio expediu aviso “em linguagem rude”: que fretassem um “iate” para transportar todo aquele equipamento para o Brasil.60 O tom geral era de nervosismo e destempero.

(...) Paradoxalmente, a chegada da família real e a concomitante abertura dos portos, em lugar de restringir o tráfico, acabaram por elevá-lo a níveis ainda mais altos.61 O número de africanos era tão expressivo, e preocupante na visão das elites, que se empreenderam políticas em “prol da povoação branca”. Dos Açores vieram casais de ilhéus que recebiam mesadas, moradias, ferramentas, carros de boi e tudo mais que fosse necessário.

(...) O mecenato de d. Pedro II conheceu, ainda, outras facetas. É famosa a admiração do monarca pela ópera e a sugestão que fez a Wagner, em 1857, encomendando-lhe uma obra lírica para o Rio de Janeiro. O pedido foi gentilmente declinado, mas, em 1876, quando d. Pedro II assistia, ao lado do imperador da Alemanha e de outros soberanos alemães, à tetralogia de Wagner, encenada em Bayreuth, autodenominou-se “um wagneriano histórico”, e não de primeira hora como os demais. Em 1857, ele criava a Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, destinada a formar músicos nacionais e difundir o canto lírico. O imperador interessava-se, igualmente, pela medicina, financiando pesquisas de profissionais

(...) O palanque desses comícios reunia as principais lideranças da frente suprapartidária - Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Lula, Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro -, e os discursos eram acompanhados por uma multidão eufórica e comovida. Por outro lado, o engajamento de intelectuais do porte de Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles e Celso Furtado, de jogadores de futebol como Sócrates e Reinaldo, e de artistas como Chico Buarque, Maria Bethânia, Paulinho da Viola, Juca de Oliveira, Fernanda Montenegro e Fafá de Belém foi decisivo para difundir as representações e os ideais de um projeto democrático. A campanha era tão grandiosa que acendeu na população a esperança de vitória. Mas, se o governo dos militares havia se desgastado, sua base de apoio político ainda não se desagregara, e as Forças Armadas estavam dispostas a agir para evitar o rompimento das regras do jogo sucessório."

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